A arte não é, de modo nenhum, necessária. Tudo o que é preciso para tornarmos o mundo mais habitável é o amor.
Isadora Duncan
O Brasil era apenas uma parada de duas semanas na viagem de volta ao mundo que a poeta Elizabeth Bishop resolveu fazer para espantar os próprios demônios em 1951, mas uma declaração de amor fez com que a estada fosse prolongada e quatorze dias virassem quinze anos. A relação da escritora americana (que morreu em 1979) com a brasileira Lota de Macedo Soares, uma intelectual e arquiteta autodidata a quem o Rio de Janeiro deve a criação do Aterro do Flamengo, trouxe Bishop para o centro da vida cultural e política de um dos períodos mais conturbados da História do país. O casal refugiava-se do tumulto, que Bishop acompanhava como espectadora das empreitadas de Lota, numa casa em Petrópolis. Entre o abrigo na serra e um apartamento no Leme, Bishop, cujo nascimento completou cem anos em fevereiro, escreveu alguns dos mais belos poemas do século XX.
Foram as cartas que ela enviou daqui, no entanto, que impeliram o americano Michael Sledge a transformar os anos brasileiros da poeta no romance “The more I owe you” (“Tanto mais lhe devo”, Counterpoint), publicado nos Estados Unidos em maio de 2010. Um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que será realizada de 6 a 10 de julho na cidade fluminense e onde ele lançará a edição brasileira da obra, pela LeYa, Sledge diz que a correspondência revela uma Bishop distinta da atitude reservada e algo distante que ela adotava em público: “Ela é tão aberta, calorosa, confiante e engraçada que você é tomado por seu enlevo com quase tudo que observa. Ela tinha uma inteligência aguda, que não deixava nada passar.” Nessa entrevista ao GLOBO por e-mail, Sledge diz que apesar do final trágico (Lota matou-se em 1967 em Nova York, no apartamento de Bishop, de quem já havia se separado dois anos antes), a relação das duas é uma história de triunfo do amor.
Mesmo que você comece com uma ideia de como o livro deve ser, ele sempre se transforma organicamente para encontrar seu próprio equilíbrio e uma voz que sirva para ele e para os personagens. Foi o que aconteceu nesse caso. Ao começar achei que o livro seria mais dividido entre as vozes de Bishop e Lota, mas comecei mais e mais a me voltar para a vida interior de Bishop — é aí, pelo menos para mim, que a história está centrada. Muitas pessoas que a conheceram lembram de Bishop como quase patologicamente tímida, ou mesmo antissocial. Seus poemas mantêm essa distância; ela detestava poesia confessional. Então, quando você lê as cartas, é fantástico ouvir uma voz em completo desacordo com a ideia dela como uma pessoa indiferente, ou distante. Ela é tão aberta, calorosa, confiante e engraçada que você é tomado pelo seu enlevo com quase tudo que observa. Ela tinha uma inteligência viva, aguda, que não deixava nada passar. Quando escrevia o livro, estava constantemente consciente da tensão entre esses dois extremos — o eu público contido, aparentemente assustado, e o eu íntimo que ela revelava a alguns poucos amigos, pelo qual Lota se apaixonou, mas que eu só pude conhecer pela imaginação.