quarta-feira, outubro 21, 2009

Veredas


As direções que tomamos nem sempre nos levam exatamente onde gostaríamos de estar. Aquilo que mais negamos é aquilo que geralmente nos define. Há tempos ando refletindo acerca de tudo aquilo que sempre neguei em mim e o quanto isto eclodiu em um determinado momento de minha vida mudando todos os rumos mesmo contra minha vontade. Antes de mim, outros brilhantes pensadores já disseram isto com muito mais propriedade. As sendas, as veredas de nossa mente são desbravadas a cada momento de confrotamento e nem sempre tomamos a direção certa neste grande sertão da alma humana. Quanto de mim se perdeu de modo irremediável em momentos cruciais. Tive como qualquer pessoa de reinventar-me com os fragmentos de cristal que encontrei após a quebra. Quantas lições estranhas de voz inconsciente e inaudível a lógica racional deixaram de ser ouvidas, aprendidas e superadas por mim. Refazer os passos, mas, agora caçando a mim mesma como descrito naquela linda melodia. As veredas, ah quantas veredas... Lembro ainda hoje de uma cena que vivi em minha infância que, talvez, ilustre o que eu estou escrevendo aqui. Meu avô Josef, um polonês típico, alto de olhos azuis radiantes, estava sentado na varanda da casa dos meus pais. Esta casa tem uma visão ampla do horizonte porque fica bem no alto. Ele olhava para um ponto longe, bem longe. Eu, com meus 6 anos incompletos me aproximei daquele homem que me causava tanta admiração e perguntei.
Avô o que está buscando lá longe?
Ele com olhos marejados respondeu...
Filha, busco uma coisa que não existe mais... A minha Polônia.
Ainda é forte a emoção que tive, porque sabia que o país dele ainda existia na geografia. Mas, não se tratava do país físico, era o país afetivo. O imigrante vive como quem está em exílio permanente. Meu avô, um homem tão forte e altivo, também chorava. Jamais teria sua Polônia e eu que o amava não poderia lhe dar de presente sua terra natal, sua esperança, o colo de sua mãe. Nada podemos fazer quando algo se perdeu para nós, aliás, podemos sim caminhar sem olhar para trás. Enterrar nossos mortos reais ou imaginários. Amores antigos, trabalhos anteriores, sonhos não realizados ou realizados. Tudo é passagem, o tempo é imperativo. O que fica então? Quais são as possibilidades para o caminhante? Não percebi quando, mas, derepente entendi que minha Polônia também não existe mais, não posso mais voltar e ninguém pode me devolvê-la. Outro país deve ser construído em mim, alguns personagens ficam na memória como heróis ou antagonistas de nossa memória. Somente lembranças, algumas embalam momentos de nostalgia, outras, é melhor manter em silêncio. Porém, as vezes, descobrinho as novas veredas neste novo país lágrimas crescem nos olhos, saudades do que não fui.

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